ARTISTA + ARTISTA
Divas e outros jardins, de Eneida Ströher
Delicadezas do meu jardim, de Lurdi Blauth
As exposições aproximam-se pela sensibilidade com que ambas as artistas se voltam à natureza como fonte de criação e reflexão. Eneida apresenta um conjunto de obras que percorre diferentes linguagens — cerâmica, tecido, papel e desenho — em composições que evocam os jardins como espaços de encontro entre o banal e o extraordinário. Suas séries revelam o prazer do fazer manual e o diálogo entre intenção e acaso. Há, em sua poética, um olhar lúdico e afetivo que transforma materiais simples em microcosmos de imaginação e memória, onde o gesto artesanal se converte em experiência estética e sensorial.
Já Lurdi Blauth apresenta um conjunto de gravuras em metal que nasce de um processo mais introspectivo, em que o gesto gráfico e o tempo do olhar se tornam instrumentos de investigação poética. Sua produção, marcada pelo rigor técnico e pela delicadeza formal, traduz um vínculo profundo com o mundo natural, revelando a natureza em suas semelhanças, diferenças e metamorfoses sutis. Em Delicadezas do meu jardim, a artista propõe uma pausa sensível: cada imagem é fruto da observação minuciosa e da experiência silenciosa de contemplar, transformando o detalhe em paisagem. Se Eneida faz florescer jardins de matéria e cor, Lurdi cultiva jardins de traço e introspecção — ambas convidando o público a percorrer, entre o real e o imaginário, os territórios onde arte e natureza se encontram.
a artista
Eneida Ströher
Eneida Ströher (Porto Alegre, 1944) é artista visual e arquiteta. Graduada em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), possui mestrado também em Arquitetura pela mesma Universidade (1997). Foi por décadas professora de Arquitetura na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Recebeu o Prêmio Maria Conceição Menegassi (2011) eo Prêmio Especial do Júri, do Açorianos de Artes Plásticas (2014). Já participou de exposições no Porão do Paço Municipal de Porto Alegre, em 2012 e 2016, no 24o Salão de Artes Plásticas da Câmara Municipal de Porto Alegre, em 2024,e na Galeria Mascate, Barraco Cultural, também em Porto Alegre, em 2024.
A artista apresenta um recorte de trabalhos de distintas temporalidades, linguagens e materialidades. Há propostas em cerâmica, tecido e papel. Boa parte das obras é formada por conjuntos de peças, incluindo uma série de quatro desenhos.
Expõe seis conjuntos de obras que guardam relações com os jardins cultivados, refúgios onde o banal e o extraordinário se tocam. Os jardins ora são explosão de cor, trazendo certo humor em seu arranjo, como as festivas Divas (2017), série de cactos realizados em cerâmica e tecido rosa, salpicados de vermelho e dispostos junto a um horizonte verde; ora nos levam a uma paisagem árida e misteriosa, como em Inverno (2018), criado a partir de pedras em cerâmica e galhos secos.
Já os Vasinhos (2017) compõem um jardim de papelão, inventando distintas variedades de plantas como que a adornar uma janela ou sacada imaginária. Um conjunto de desenhos feitos à lápis com pontuações em cor (2025) também traz a vegetação como motivo, por vezes tomando conta do espaço da folha, por vezes dialogando com elementos arquitetônicos. Já Xícaras (2024) e Três tristes tigres (2011), embora não constituam jardins, não deixam de criar microcosmos em que percepção e imaginação se confundem.
– Sem título, 2025
Série de desenhos em papel, executados à lápis com pintura em tinta acrílica e/ou lápis de cor.
– Xícaras, 2024
Série de pequenas xícaras e respectivos pires realizados em cerâmica e pintados com tinta acrílica.
– Inverno, 2018
Série de elementos em cerâmica em formatos diversos,dispostos junto a galhos secos.
– Divas, 2017
Série depequenos vasos de cactos realizados em malha e em cerâmica, dispostos junto a uma linha pintada na parede.
– Vasinhos, 2017
Série de pequenosvasos e suas respectivas vegetações, elaborados a partir dareutilização de papelão proveniente de embalagens de leite e outras.
– Três tristes tigres, 2011
Três elementos em malha com enchimento em fibra sintética bordadoscom linha.
curadoria
Fernanda Albuquerque
Fernanda Albuquerque (Rio de Janeiro, 1978) é curadora e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde atua no Bacharelado em Museologia e no Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio (PPGMUSPA). Possui mestrado e doutorado em Artes Visuais – História, Teoria e Crítica pela UFRGS (2006 e 2015), com estágio sanduíche na UniversityoftheArts London (2013-2014). Desde 2021, integra o Comitê de Acervo e Curadoria do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Foi Curadora Assistente da 8a Bienal do Mercosul (2011) e Curadora de Artes Visuais do Centro Cultural São Paulo (2008-2010). Desde 2007, desenvolve projetos curatoriais e educativos em instituições como Instituto Tomie Ohtake, Goethe Institut Porto Alegre, Bienal de São Paulo, Santander Cultural, Bienal do Mercosul, Galería Gabriela Mistral, Museu Murillo La Greca, Pinacoteca Aldo Locatelli, MACRS e Centro Universitário Maria Antônia, dentre outros. Em 2010, recebeu o “Prêmio Estudos e Pesquisas sobre arte e economia da arte no Brasil”, oferecido pela Fundação Bienal de São Paulo. Em 2022, ganhou o “XV Prêmio Açorianos de Artes Plásticas – Destaque Curadoria”, ofertado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa da Prefeitura de Porto Alegre.
Divas e outros jardins
Um dos grandes motivos a inspirar artistas ao longo da história, os jardins são metáfora privilegiada para pensar a invenção poética.Imaginar, semear, compor, observar e cuidar são gestos que também nos falam da criação artística. Com os jardins, aprendemos “o modo como as coisas anseiam ser, a concentração, a dispersão, a insistência, a alegria das novas ocupações”, escreve a poeta Ana Martins Marques.
Em Divas e outros jardins, Eneida Ströher (Porto Alegre, 1944) apresenta seis conjuntos de obras em linguagens e materiais diversos, que guardam relações com os jardins que cultivamos em nossas vidas, refúgios onde o banal e o extraordinário se tocam. Os jardins aqui expostos ora nos brindam com uma explosão de cor, trazendo certo humor em seu arranjo, como as festivas Divas (2017), série de cactos realizados em cerâmica e tecido rosa, salpicados de vermelho e dispostos junto a um horizonte verde; ora nos levam a uma paisagem árida e misteriosa, como em Inverno (2018), criado a partir de pedras em cerâmica e galhos secos.
Já os Vasinhos (2017) compõem um jardim de papelão, inventando distintas variedades de plantas como que a adornar uma janela ou sacada imaginária. Um conjunto de desenhos feitos à lápis com pontuações em cor (2025) também traz a vegetação como motivo, por vezes tomando conta do espaço da folha, por vezes dialogando com elementos arquitetônicos. Já Xícaras (2024) e Três tristes tigres (2011), embora não constituam jardins, não deixam de criar microcosmos em que percepção e imaginação se confundem.
A “alegria das novas ocupações” se faz presente nessa série de trabalhos que, assim como os jardins, oferecem um lugar de contemplação. Uma amostra desse inspirador diálogo entre natureza e sonho. Intenção, intuição, acaso, invenção. Se a visita provocar o desejo de plantar um jardim, a exposição terá lançado uma semente.
Delicadezas do meu jardim
Lurdi Blauth
Curador: Paulo Gomes
Nesta série de 20 gravuras em metal nasce em um momento mais introspectivo da artista, e de um processo poético que, por meio do gesto gráfico e do tempo do olhar, investiga a natureza em suas semelhanças e diferenças, cultivando uma relação sensível entre arte e mundo natural. Cada gravura é uma experiência de silêncio e de presença, em que o detalhe se torna paisagem e o traço, um convite à contemplação.
A obra se distingue por uma produção gráfica extensa, sensível e tecnicamente apurada, resultado de um processo contínuo de observação e experimentação. linhas e incisões registram os múltiplos aspectos da natureza — suas semelhanças, diferenças e sutis metamorfoses.
A artista alia rigor técnico, beleza formal e reflexão estética, construindo uma linguagem visual em que o domínio da gravura se converte em instrumento de contemplação. Seus temas, quase sempre inspirados nas paisagens e no entorno natural, revelam um olhar atento, resultado de viagens, vivências e de um vínculo profundo com o meio ambiente — ora pleno e exuberante, ora ameaçado e fragilizado.
artista
Lurdi Blauth
Reside em São Leopoldo, RS. Dra. Em Artes Visuais – Poéticas Visuais, Instituto de Artes Visuais/UFRGS, artista visual com produção na área da gravura, fotografia, livro de artista, instalação e meios menos tóxicos. As investigações poéticas abordam os conceitos de matriz, imagem, repetição, impressão, múltiplo; as temáticas atuais envolvem elementos da natureza. Realiza exposições individuais e coletivas em museus e centros culturais nacionais e internacionais do Brasil, Alemanha, Argentina, Espanha, França, Portugal, Eslováquia, entre outros. Em 2019, recebeu os prêmios 5th Enter Into Art, (PRÊMIO: Jury’s Excellence); Colonia, Alemanha; Exposição Internacional de Mini Print, Cantabria, Espanha (3º PRÊMIO); em 2023, o filme-curta Casa Ateliê Lurdi Blauth, exibido no canal ARTE1, recebeu Menção Honrosa, 5ªEd. MAF (Marginal Art Festival) EURART GALLERY, Portugal; Melhor Produção Poética Visual, 21º Salão de Artes Visuais Madrid, Espanha. Site: www.lurdiblauth.com.br / Youtube Curta Casa Ateliê Lurdi Blauth Instagram: @lurdiblauth /Email: [email protected]
curador
Reside em Porto Alegre. Doutor em Artes Visuais – Poéticas Visuais pelo Instituto de Artes/UFRGS. Professor aposentado do Departamento de Artes Visuais – Instituto de Artes/UFRGS, onde coordenou a Pinacoteca Barão de Santo Ângelo(Instituto de Artes – UFRGS) de 2011 a 2023. Atua como historiador da arte, artista visual e curador independente, sendo membro da AICA, ABCA, CBHAe ANPAP. Publicou MARGS 50 Anos (2005), Artes Plásticas no Rio Grande do Sul: uma panorâmica (2007), Pedro Weingärtner: obra gráfica (2008), 100 Anos de Artes Plásticas no Instituto de Artes da UFRGS (2012), Pinacoteca Barão de Santo Ângelo: Catálogo Geral 1910-2014 (2015).Desenvolve pesquisas em História da Arte, com ênfases no século XIX e primeira metade do século XX, com destaque na História da Arte no Rio Grande do Sul, na obra de Pedro Weingärtner (1853-1929).
Delicadezas do meu jardim
Para fazermos a curadoria da exposição “Delicadezas do meu jardim”, nos debruçamos, a artista Lurdi Blauth e eu, sobre a sua imensa produção gráfica. Foi um processo de aproximação e exame de dezenas de imagens gravadas com, naturalmente, muito encantamento da minha parte. Evidente que eu já havia navegando – lentamente, como deve ser a navegação de reconhecimento – no site da artista e admirado cada uma das 29 séries registradas! Digo isso por que entendo uma curadoria como um processo de conhecimento da obra a ser exposta e, para isso, é necessário tempo e dedicação. Como foi dito, a imensa produção gráfica de Lurdi Blauth é tributária de uma dedicação contínua da artista, sempre atenta aos aspectos técnicos – o que é natural, pois é professora –, aos resultados formais – pois as gravuras devem sempre ser belas – e, finalmente, aos temas eleitos. Sobre os temas observamos que predominam àqueles ligados à natureza, resultados do olhar atento em numerosas viagens de exploração por diferentes locais onde a natureza se apresenta de forma plena – e, também, por vezes vandalizada – e o seu entorno. É desse entorno próximo que escolhemos as gravuras dessa exposição, as Delicadezas do meu jardim, aqui representada por um conjunto de mais de duas dezenas de imagens gravadas. São imagens delicadas, resultado de uma observação cirúrgica dos objetos representados e plasmadas com recursos refinados de gravação. Não dispomos, nesta reduzida parede onde você lê este texto, de espaço para maiores explicações. Na verdade, elas são desnecessárias: veja a exposição, com vagar, com gosto e proveito, pois ela satisfará plenamente seus sentidos.
Paulo Gomes
abertura
11 de novembro de 2025, 19h
17h conversa com artistas e curadores
visitação
até 14 de dezembro, de terça a domingo, das 10h às 18h
entrada franca




