Tio Trampo: antes, agora e além
O projeto Seleção Ecarta presta homenagem a um artista cuja trajetória se confunde com a própria história da arte urbana. Reúne um conjunto significativo de obras que evidenciam a potência e a coerência da produção desse pioneiro.
A exposição apresenta trabalhos em diferentes técnicas — desenho, pintura, fotografia, sketchbooks e objetos —, explora diferentes suportes, como prancha de surfe e skate, e inclui ainda vídeos e revistas que evidenciam a dimensão urbana de sua produção revelando as múltiplas camadas de seu olhar e de sua pesquisa poética.
A mostra contempla a cidade como território artístico, por meio de vídeos, estudos e registros de seus grandes murais, como o emblemático trabalho situado na Cidade Baixa, em Porto Alegre.
o artista
Luís Flávio Trampo
Luís Flávio Trampo (Porto Alegre/RS, 1972), mais conhecido como Tio Trampo, é um dos precursores do graffiti no Brasil e até hoje, um dos mais ativos. Influenciado principalmente pela cultura brasileira, das metrópoles as tribos indígenas, Trampo demonstra em suas intervenções uma poética visual singular. Por vezes simbólica e experimental, em outros momentos mais figurativa, mas sempre adequada ao ambiente que está inserida. Conhecido por seu trabalho social, Trampo é a referência de arte urbana em Porto Alegre, participando tanto como voluntário em oficinas para adolescentes em comunidades em situação de vulnerabilidade social e pessoal, como também compartilhando esse mesmo conhecimento em universidades e workshops. Sua circulação em diferentes meios, se reflete também na sua produção e na multiplicidade da aplicação de suas obras. Independente da forma como faz, seu objetivo é sempre o mesmo, levar a arte para onde as pessoas estão.
Vinicius Amorim (Porto Alegre/RS, 1985) é bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas pela PUCRS, atuou por mais de 10 anos com marketing promocional, planejamento e concepção de projetos, em agências e produtoras de eventos. Em uma temporada de dois anos em Barcelona, na Espanha, conectou-se com o universo cultural e do entretenimento. Em 2014, começou a desenvolver projetos com foco nas artes visuais. É curador e produtor executivo no Sul do Brasil pelo projeto canadense “Art Battle”, maior competição de pintura ao vivo do mundo. Foi responsável pela Fábrica São Geraldo, galeria de arte, estúdio e espaço multiuso para iniciativas culturais, localizada no 4º Distrito de Porto Alegre (RS) – que, durante três anos, ressignificou um antigo galpão abandonado através da arte. Atualmente, está à frente da Pólen – Arte em Movimento, ecossistema de arte que atua na concepção, curadoria, produção e elaboração de projetos do universo cultural e leis de incentivo à cultura. Além de participar da Diretoria da Bienal do Mercosul.
curadoria
Vinicius Amorim
apresentação
A cidade como museu: Tio Trampo, Vinicius Amorim e o Muralismo que transformou Porto Alegre
Quando o sistema da arte ainda fechava portas para a arte urbana, essa resistência impulsionou a criatividade e a ousadia de artistas que cultivam uma relação mais íntima com a cidade, acreditando que suas paredes são a galeria mais livre que pode existir. Como poeta visual urbano, Luís Flávio de Lacerda Vitola, o Tio Trampo, surge como um pioneiro das ruas: escrevendo e desenhando, seja sob a luz brilhante do Sol ou sob o luar das noites, inaugurando as primeiras grandes pinturas murais — um movimento que tem raízes desde a arte primitiva até a contemporânea, que Porto Alegre teve o privilégio de vivenciar.
Há 30 anos, conheci e fui colega do artista, no revolucionário projeto de Descentralização da Cultura, da administração popular da prefeitura de Porto Alegre, quando percorríamos as periferias, muito antes de comunidades e inclusão social se tornarem pauta nas instituições culturais. Desde essa paisagem de diversidade cultural, com cores de utopia, o artista flutua como flâneur sempre contemporâneo, semeando a sua arte pela cidade, abrindo passagens por muros e vias e extraviando seus sonhos pelo mundo.
Com o passar dos anos, sua atuação — iniciada com grande visibilidade no primeiro Fórum Social Mundial (2001) — foi colecionando parcerias com outros grandes artistas brasileiros e estrangeiros, no país e no exterior, até chegar ao projeto “Olhe Pra Cima”, com curadoria também de Vinicius Amorim. Tio Trampo é um colaborador de primeira hora, abrindo a perspectiva cinza da metrópole para uma atmosfera colorida, misturada às temáticas de cada convidado.
Seu mural na Cidade Baixa, na esquina da Rua da República com a Avenida José do Patrocínio, no moderno edifício Salomão Ioschpe, expõe sua pesquisa sobre sólidos platônicos, associada ao pássaro que se tornou a marca de seu trabalho e a metáfora de seu voo sem limites sobre a urbe. Assim apresentamos hoje, na Galeria Ecarta — que também é uma obra de arte urbana legada pelas mãos do boliviano Freddy Mamani à cidade pela 13ª Bienal Mercosul — a consagração de um nome e de seu legado às ruas, que faz da arte urbana essa fronteira pública entre o mundo exterior e o nosso interior, uma arte desterrada do sistema tradicional da arte, pois seu verdadeiro lugar está dentro do nosso olhar.
A Fundação Ecarta parabeniza e agradece, em nome do bairro Cidade Baixa e de todos os lugares de Porto Alegre por onde Tio Trampo e Vinicius Amorim já pintaram e ainda vão pintar, por abrirem tantos espaços públicos para a arte arrebatando o céu para fazer da cidade um museu infinito.
André Venzon
Artista visual, curador e gestor cultural
data
abertura
5 de março de 2026, 19 horas
conversa com artistas às 17h
visitação
até 5 de abril de 2026, de terça a domingo, das 10h às 18h
entrada franca

