PROJETO POTÊNCIA

O Fundo do Pulmão

A mostra constrói uma zona de suspensão, tomando como eixo central a constante repetição do primeiro ato da vida humana: o respirar. Por meio de uma videoinstalação em looping contínuo, a exposição rompe com a lógica linear do tempo para engajar o visitante em um estado de estranhamento.

Três vídeos projetados sobre algodão cru mostram figuras sem olhos respirando infinitamente, evidenciando apenas as partes do corpo envolvidas no ato de respirar. Em um display central, um texto narra o processo respiratório como uma inevitável contagem em direção à morte, trazendo à tona a sensação de que, na inevitável passagem do tempo, nada retorna; nem mesmo o nosso ar exalado.

o artista

Alex Domingues (Porto Alegre, 2001) é artista visual, cineasta e produtor cultural, graduado em Artes Visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 2026, inaugurou a exposição individual Noite de Temporal, com curadoria de Laura Cattani e Munir Klamt, na galeria da Cinemateca Capitólio, resultado de um projeto de cinema expandido assinado pelo Instituto Torus. Em 2025, realizou a exposição individual Villa-Domingues, com curadoria de Bruna Fetter. Participou de mostras e exposições coletivas pelo Brasil, como a Mostra Farolete de Artes do Vídeo (Museu da Bandeira, Goias), Panorama 7 (Funarte MG, 2026), Mostra de Videoarte Ciclos (CCCRJ, 2024) e FAC – Festival Audiovisual de Cultura (Santa Bárbara, MG, 2023).
No Rio Grande do Sul, participou do 25º Salão de Artes Plásticas da Câmara Municipal de Porto Alegre,  Dedos Cruzados, na Casa de Cultura Mario Quintana, e Nem Tudo é Azul, na Pinacoteca Rubem Berta, entre outras. Sócio-fundador  da produtora O Estranho,  assina a direção e roteiro de M.U.S.A., longa-metragem financiado pela Lei Paulo Gustavo – Canoas, primeiro longa-metragem de ficção produzido no município. Dirigiu também oito curtas-metragens, entre eles Anacronia (2023), que circulou em festivais de cinema por diversos estados do país.

curadoria

Beatriz Martini (Porto Alegre, 2002) é bacharela em História da Arte pela UFRGS e bailarina. É crítica de arte no projeto de extensão Nervo Crítico, associado ao Departamento de Artes Visuais da UFRGS. Fez parte do coletivo curatorial Mentiras Autorizadas, na produção da exposição Dedos Cruzados, na CCMQ em 2025, bem como assinou a curadoria coletiva da mostra IA-UFRGS na 15º edição do festival Cine Esquema Novo, no mesmo ano.
Como bailarina tem mais de 15 anos de experiência, tendo estudado em Porto Alegre e no Rio de Janeiro sob a orientação de instrutores como Alexandre Rittmann, Gisele Meinhardt, Pablo Torres, Carla Bublitz, Ana Botafogo, Cecília Kerche e Victória Milanez, além de um curto período em Portugal em que estudou no Conservatório Annarella Sanchez. Atualmente compõe o elenco da produtora Fever International no espetáculo Ballet of Lights desde 2025. Em produções recentes, faz parte do elenco de Noite de Temporal, curta metragem de cinema expandido do artista Alex Domingues, com quem colabora também em Excesso de Ar, video performance exposta na Mostra Audiovisual em Curso da 16ª edição do Cine Esquema Novo, em 2026.

O Fundo do Pulmão

Não é raro que as palavras “passado, presente e futuro” causem angústia ou algum pânico. O tempo, na nossa concepção, se organiza de maneira espiral e sobreposta. Não há nenhum passado, sequer um presente ou futuro, tudo o que existe como “tempo” se mescla nessas figuras ou “personas” que organizam e tornam visível, para o ser humano, a passagem do tempo. O hoje não acontece sem o ontem e, principalmente, sem o desejo sobre o que virá amanhã. A memória do que já foi e o desejo por inventar um futuro é o que materializa o tempo criando os dias, semanas, meses e anos de humanidade. O Fundo do Pulmão, terceira exposição individual de Alex Domingues, brinca com três criaturas míticas, sem rosto, fruto de um sonho do artista sobre a passagem do tempo. As figuras tecem sua sorte e a de quem visita a mostra.

Diferentes culturas se desenvolveram em torno do tema do tempo, criando histórias sobre três criaturas responsáveis pelo destino de cada indivíduo. Uma dessas elaborações é  a concepção grega através das Gréias e as Moiras, dois trios de criaturas que, juntas, decidem ou então lêem o destino dos que as procuram.

As primeiras, Graeae, irmãs que compartilhavam um único olho e um único dente. Elas guardavam o caminho para as Górgonas, certa vez tendo Perseu como o ladrão de seu olho, para que o herói pudesse lutar pelo seu próprio destino, mas essa é outra história. As segundas, então, as Moiras: Cloto, Láquesis e Átropos, são seres que tecem, avaliam, medem e cortam o fio da vida de todos os mortais e também dos deuses. A primeira é a fiandeira, responsável pelo nascimento dos seres, ela fala de esperança, desejo e sonho; a segunda é responsável pelo desenvolvimento da vida, sorteando o comprimento de cada fio e, portanto, a duração da vida e o destino de todos, ela fala de propósito. A última, no entanto, é a mais temida: inevitável, a responsável pela tesoura decide quando ocorrerá o último respiro de vida. Átropos decide quando o pulmão deixará de receber o ar e distribuí-lo pelo corpo.

Curiosamente, também é grego o nome da doença que acomete 10% da população brasileira ao ameaçar sua integridade respiratória: a asma, do grego, asthma (ἅσθμα), condição com a qual o artista lida desde a infância.

Seremos nós, humanos, capazes de influenciar a decisão das Moiras? Em O Fundo do Pulmão te convidamos a desafiar a própria capacidade respiratória, desafiar a força e a dominância do ar sobre os nossos corpos. O trio de criaturas indecifráveis nos intimida, quer que pensemos sobre o ato aparentemente natural de respirar, tornando-o difícil, antinatural e muito pesado. Isso é incômodo ao espectador. O oráculo te pergunta se sabes reter o oxigênio por mais tempo, se tu pensas sobre o ato de respirar, se o fazes conscientemente ou se seus pulmões são apenas um instrumento da natureza como qualquer outro.

Aqui, o tempo passa de uma maneira mais sútil, o início e o fim da performance se mesclam através de looping, um método comum ao artista, que continuamente pesquisa o tempo como um elemento artístico.

Beatriz Martini

Curadora e intérprete

abertura
29 de setembro de 2026, 19h
Conversa com artistas 17h

visitação
até 1º de novembro, de terça a domingo, das 10h às 18h, inclusive feriados

Edital 2026
Comissão curatorial

André Venzon
Gilberto Habib de Oliveira
Valéria Barcellos

Entrada franca