Memórias que Elas retém
Exercícios de permanência: oralidade e memória
A exposição parte da descoberta de fotografias esquecidas em uma caixa, no quarto que um dia foi de Vitalina Ribeiro, em Santa Rosa. As imagens vieram de Guarani das Missões — de lá partiram Doroteia Nilson e João Ribeiro, os fundadores da família que deu origem ao trabalho.
Diante daquele arquivo, o primeiro gesto foi perguntar. Uma por uma, as fotos foram levadas à avó Edi: quem eram, onde era, o que ocorria. Das histórias contadas, permaneceram as que mais marcaram — aquelas que ainda se mantêm nítidas no imaginário. O resto — o padre sem nome, os figurantes anônimos, os rostos que a memória já não alcança — ficou no limiar do esquecimento.
A pintura e o desenho vieram como um segundo gesto. Não para resgatar o que se perdeu, mas para habitar o intervalo entre o que a foto já não mostra, o que a memória já não retém e o que a mão ainda pode fixar.
obras
Os oito exercícios reunidos — quatro pinturas a óleo, quatro desenhos em sanguínea e pastel seco sobre tons terrosos — são tentativas de fixar o que a ação do tempo ainda não levou por completo. Gestos de permanência. Modos de dizer: isso aqui não foi esquecido. Ao menos não ainda.
1 desenho com sanguínea e lápis pastel seco branco sobre papel (tamanho A5)
2 desenhos com sanguínea e lápis pastel seco branco sobre papel (próximo de A3)
4 pinturas a óleo sobre lona de algodão (dimensões variadas, três maiores com 1,20 x 1,90 e uma menor com aproximadamente 90 x 60 cm)
a artista
Isabelle Foliatti
Isabelle Foliatti (Porto Alegre, 1999) é artista visual, bacharel em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, trabalha sobretudo com a representação humana em retratos partindo e técnicas de pintura a óleo, murais e desenho em variados suportes.
a curadora
Katia Prates
Katia Prates é artista visual. Professora no Instituto de Artes/UFRGS, tem doutorado em Poéticas Visuais e pós-doutorado em História, teoria e crítica em Artes Visuais, ambos na UFRGS. Seu trabalho relaciona-se com a invisibilidade inerente à imagem.
texto da artista
Exercícios de permanência: oralidade e memória
Exercícios de permanência: oralidade e memória
Quando encontrei essas fotos em Santa Rosa, guardadas fora dos álbuns de fotografia, dentro de uma caixa no quarto que um dia já foi de Vitalina Ribeiro, foi como encontrar um trecho desconhecido da história da família, a parte da qual tive contato a vida inteira. A primeira atitude diante daquele arquivo foi selecionar as que mais me interessaram e, em seguida, perguntar sobre elas para a dona Edi minha avó, uma por uma: quem eram, onde era, o que ocorria, por quê ocorria.
Quase todas as fotografias foram feitas na região de Guarani das Missões, à qual pertenço. Algumas dessas imagens já preservam um cotidiano anônimo, uma vez que não nos lembramos mais quem são as pessoas da foto. Vagamente lembramos de histórias que podem ou não remeter a esses acontecimentos que foram registrados. Há cenas de batismo, mas não sabemos quem é o padre e tampouco as outras pessoas que ali se encontram. Há registros de entes queridos, mas já não recordamos quem são os outros figurantes. E há retratos de pessoas que já foram completamente varridas da nossa memória.
O exercício da pintura e do desenho acompanha o exercício da lembrança dessas fotos e das narrativas que atravessam essas imagens. Fotos que já estavam no limiar do esquecimento quando foram encontradas, guardadas de forma solta em uma caixa no fundo de um roupeiro, resgatadas sem querer quando eu procurava alguma outra coisa naquele armário. Essa prática de representação com tinta a óleo e sanguínea parte sobretudo das histórias que minha avó me contou sobre as pessoas presentes nas imagens. Dessas histórias, eu lembro das que mais me marcaram — aquelas que permaneceram nítidas no meu imaginário.
A memória é o fio condutor que continua mantendo uma parte dessas fotografias vivas. Elas ainda se referem a pessoas que conhecemos, mesmo que não pessoalmente; conhecemo-las por uma espécie de tradição oral. Outras, às quais a memória já não consegue mais acessar, são registros de outra época que, de certa forma, seguem driblando a ação do tempo. Ainda assim, se continuamos a preservar esses papéis com imagens de pessoas que já não nos recordamos, é porque em algum momento fizeram parte dessa família e foram assim parar na mesma caixa que guarda fotos cuja importância lembramos muito bem.
Outro pilar dessa produção é a ação do tempo — esse tempo que nos perpassa, influenciando a seleção das informações que guardamos ou deixamos de guardar, que sujeita certos eventos ao esquecimento e mantém outros sendo lembrados de geração em geração. O tempo imprime seus impactos para além da imagem: ele desgasta o papel, mancha as bordas, amarela o que um dia foi branco. Mas o apagamento das imagens independe dos nossos esforços; ele acontece mesmo quando nos recusamos a esquecer.
A memória que parte da minha avó Edi também perpassa o fenômeno de tornar-se coletiva. Se conhecemos Doroteia, João Ribeiro, Hipólito Ribeiro, Carolina Ribeiro, os conhecemos por histórias dela. Essa transmissão de histórias que atravessa gerações segue viva pela oralidade e orientada por esses poucos registros fotográficos — muito pequenos, já borrados, mas que servem para orientar a imaginação sobre essas pessoas. É inevitável, portanto, que muito se complete sobre a aparência deles a partir da imaginação. É nesse intervalo entre o que a foto já não mostra, o que a memória já não alcança e o que a mão ainda pode desenhar que o meu trabalho se instala.
Os oito exercícios aqui reunidos — quatro pinturas a óleo, quatro desenhos em sanguínea e pastel seco sobre tons terrosos — são tentativas de fixar o que a ação do tempo ainda não levou por completo. São gestos de permanência. São modos de dizer: isso aqui não foi esquecido. Ao menos não ainda.
Isabelle Foliatti
data
de 22 de maio a 28 de junho de 2026
Entrada franca

