PROJETO POTÊNCIA
Encaixotando Desencaixados
A exposição propõe uma reflexão sobre a desconstrução dos conceitos tradicionais de masculinidade e a representação idealizada do corpo masculino. Reunindo cinco instalações que partem da fragmentação da imagem e da materialidade precária de caixas de isopor reaproveitadas, a mostra tensiona as fronteiras entre contenção e transgressão. Ao abordar corpos dissidentes — vulneráveis, marginalizados e fora dos padrões hegemônicos — o projeto questiona quais corpos são visíveis, desejáveis e válidos, convidando o público a refletir sobre identidade, resistência e liberdade.
artista
Edu Devens
(1971, Piratini/RS) vive e trabalha em Pelotas/RS. Sua pesquisa em artes visuais aborda corpos dissidentes e a fragmentação dos conceitos clássicos da masculinidade. Autodidata em sua formação inicial, posteriormente ingressou no Bacharelado em Artes Visuais pela UFPel.
Realizou exposições individuais, com destaque para Sugar – Reflexões Amargas (Galeria da UFCSPA, Porto Alegre/RS, 2023) e Da Linha à Linha Existencial – Trajetos de Memória (Sala Multiuso, Rio Grande/RS, 2019). Participou de coletivas em instituições como o Salão de Artes Visuais de Vinhedo/SP (2025), Vórtice Cultural (São Paulo/SP, 2024), Casa do Brasil (Madrid/Espanha, 2011) e Museu Pablo Neruda (Isla Negra/Chile, 2009).
obras
Cinco instalações escultóricas formadas por lambe-lambe de fotografias sobre caixas de isopor (descartadas do transporte de frascos de Botox) e fitas adesivas de alerta:
- David septuagenário (2025) – 8 caixas de isopor, 124 × 74 × 24 cm (total).
- O beijo de Brâncusi (2025) – 3 caixas de isopor, 108 × 40 × 28 cm (total).
- Transmutar (2025) – 4 caixas de isopor, 164 × 47 × 44 cm (total).
- O Y da questão (2025) – 14 caixas de isopor, 148 × 130 × 31 cm (total).
- Colunável (2024) – 20 caixas de isopor, 180 × 150 × 28 cm (total).
curadoria
Daniela Bousso
Desencaixados: corpos sem amarras
Daniela Bousso
A obra de Eduardo Devens articula a noção de corpos decoloniais como insurgência às estruturas coloniais e eurocêntricas ainda presentes no sistema social e no da arte. Seus trabalhos — entre a fotografia e o tridimensional — híbridos, exploram como masculinidades dissidentes e identidades queer podem afirmar-se como formas de resistência. Ao deslocar referências clássicas e confrontar discursos normativos, Devens constrói uma poética em que o corpo deixa de ser mera representação.
No cenário contemporâneo, a arte não se restringe à expressão individual: ela se afirma como plataforma política e social. Torna-se palco de diálogo em que questões fundamentais como raça, gênero, etarismo e meio ambiente se manifestam em vozes múltiplas e entrecruzadas. Nesse contexto, a arte se torna “vida ativa”, segundo propôs Hannah Arendt: provoca debate, questiona narrativas dominantes e estimula o pensamento crítico.
As subjetividades de hoje são marcadas pela militância, pois revelam o descontentamento diante dos sistemas de opressão e o desejo por uma sociedade mais inclusiva e igualitária. É nesse horizonte que Devens inscreve sua obra, ao desestabilizar símbolos da tradição ocidental e propor novos modos de existência.
Seus corpos, contra hegemônicos, desafiam as narrativas dominantes e configuram um terreno de luta e transformação. A arte se torna um espaço de resistência em diálogo constante com forças externas que moldam identidade e autopercepção, de modo a refletir as complexidades que envolvem os corpos mutantes que produz. As figuras que emergem em suas imagens são envelhecidas, trans, fragmentadas, enrugadas e vulneráveis, e representam uma urgência de contestação.Essas corporalidades confrontam os conceitos de masculinidade erigidos pela história da civilização ocidental, na qual o homem sempre foi símbolo de força e perfeição. Em séries como Encaixotando Desencaixados, Devens revisita mitos e símbolos da Antiguidade clássica, mas também do hinduísmo e do candomblé. Ao deslocá-los para um campo dissidente, transforma-os em releituras críticas que criam sentidos e desestabilizam a herança eurocêntrica.
Sua prática, orientada pelo projeto e pelo desenho, constrói no ateliê — junto aos homens que posam — uma atmosfera entre o real e o simbólico. Essa dimensão performática aproxima sua obra do teatro de Antonin Artaud, que buscava romper com a passividade do espectador em favor de uma experiência visceral, capaz de abolir a distância entre palco e plateia.
“Nessa estética de confrontação, a passividade do modelo que posa é superada quando ele me devolve o olhar”, afirma Devens. Nesse instante, a nudez deixa de ser representação estética para se transformar em ato de subversão de regras. Esse gesto ecoa a noção de performatividade de gênero, formulada por Judith Butler, segundo a qual o corpo não é simples essência biológica, mas se constitui em práticas reiteradas que podem tanto reforçar quanto extinguir normas. Ao expor fragilidade e desvio em seus modelos, Devens reposiciona a ideia de masculinidade: Seus corpos são imperfeitos, fragmentados, tem cicatrizes, rugas e ele não esconde estas imperfeições, ao contrário, as expõe.
Entre seus deslocamentos, o suporte fotográfico migra para o tridimensional, recorrendo a materiais precários e descartados: isopor, caixotes, mármore quebrado. Esses elementos funcionam como metáforas críticas de uma sociedade que também descarta corpos dissidentes. Nesse hibridismo, ideias de reconstrução, desejo e afeto se entrelaçam à precariedade dos materiais, abrindo novas camadas de significação.
A ironia aparece como uma de suas principais armas contra preconceito e exclusão. O corpo torna-se portal de experiências pessoais e coletivas, que ressoam e desafiam definições fixas, de modo a valorizar sujeitos marginalizados, desencaixados e insurgentes.Assim, Devens transforma a adversidade em perspectiva de linguagem. Suas corporalidades não são apenas representações: são registros vivos de identidades que resistem às narrativas hegemônicas e se movem em direções desobedientes às normas sociais. Sua poética articula masculinidade e identidade queer, além de subverter discursos bioessencialistas que se pretendem universais.
Aqui é inevitável lembrar Butler: se todo corpo é atravessado por normas de poder, é justamente no ato da subversão que encontra sua potência política. Ao devolver vitalidade a essas presenças dissidentes, Devens propõe uma estética da resistência decolonial. Seus trabalhos escapam do casulo de conveniência da sociedade do capital e projetam-se como espaços de liberdade e reinvenção. Esses corpos desencaixados, ao se libertarem das amarras, reescrevem o lugar da arte no presente.
abertura
28 de agosto de 2025, 19h
17 horas conversa com os artistas
visitação
até 21 de setembro de 2025, de terça a domingo, das 10h às 18h
Entrada franca

