ARTISTA + ARTISTA

Da condição à crise do corpo

Reflexões poéticas sobre o corpo e suas experiências pessoais através das obras de Ernani Chaves e Sandra Kravetz, que abordam, respectivamente, a fragilidade e o vazio. De técnicas tradicionais à abstração, a exposição revela as trajetórias desses artistas que transformam suas vivências em linguagem visual, sob curadoria de Gabriela Motta.

 
As obras da artista trabalham com o conceito de vazio enquanto eco de memórias e ausências que pulsam em um universo de sombras que permanece mesmo onde não há luz, um espaço que não se preenche, mas que insiste em ser sentido. Nesse aspecto, o vazio do olho que não enxerga mais é um horizonte amputado, uma janela selada para o mundo, onde as imagens se desvanecem como sonhos ao despertar.

Pela pintura, esse vazio se transforma em textura, em camadas de cor e silêncio que gritam a sua história; e cada pincelada pode ser lida, simultaneamente, como uma ferida, uma cura, uma confissão e uma celebração. É assim no vazio que a perda, ausência e a dor encontram seu lugar de memória e de respiro estético e poético.

(Porto Alegre, RS, 1956) é psicóloga e artista plástica. Iniciou sua trajetória artística em 1980, no Atelier Livre Xico Stockinger, em Porto Alegre. Ao longo de sua pesquisa, estudou pintura com Carlos Carrion de Britto Velho, Lou Borghetti e com a curadora e professora de história da arte Ana Zavadil. Atualmente participa de dois grupos de estudos em artes visuais: desde 2023 integra o grupo coordenado pelo crítico e historiador de arte, Oscar D’Ambrosio e, em 2025, do grupo orientado pelo curador e gestor cultural André Venzon. Em 2023, realizou uma residência artística no Espaço Cultural Casa Amarela, em Porto Alegre, onde aprofundou suas investigações estéticas e experimentações com a artista e curadora Rose Osório.

 
Transita entre sua pesquisa poética de desequilíbrios físicos e virtuais, operando em gravura, desenho, instalações e performances, constituindo a mobilidade de suportes e construções de suas matrizes de gravura e coleta de materiais com possibilidades de criação.

Completando sua atuação, é arte educador com 30 anos de trajetória, e atualmente é professor de classe especial com autistas e síndromes variadas onde recebe licenciados de artes visuais em seus estágios pela Faculdade de Educação e Instituto de Artes da UFRGS.

Graduado em Artes Visuais: licenciatura pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul – UERGS e Mestre em Educação pelo PPGEDU – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, na linha de pesquisa Filosofias da Diferença. Participou de diversas exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior. Foi selecionado no Programa Rumos Itaú Cultural em 2009. Recebeu o 1º Prêmio no 3º Salão FUNDARTE/Sesc de Arte 10×10 em 2011. Recebeu também o 1º Prêmio IEAVI em 2012, com a exposição Empilhamentos. Em 2015, foi escolhido dentre 25 artistas de vários países a fazer uma residência artística e exposição na Hanzehogeschool/ Minerva Art – Academia em Groningen – Holanda. Em 2018 foi selecionado para a Bienal do Douro de Gravura, Portugal. Exposição Itinerante e obra em acervo da Bienal.

Em 2021- Exposição no Museu Casa da Moeda de Madrid. 48 Prêmio Internacional de Arte Gráfico Carmen Arozena. Obra classificada. Atualmente é professor de artes da Escola Especial Tristão Sucupira Vianna.

curadora
Gabriella Motta

texto curatorial

A condição do corpo – exposição de Ernani Chaves e Sandra Kravetz

Curadoria: Gabriela Motta

A condição do corpo reúne obras de Ernani Chaves e Sandra Kravetz que, nesta exposição, se aproximam por possuírem um ponto de partida em comum: ambos desenvolvem suas poéticas a partir de experiencias pessoais – físicas. A tensão, o equilíbrio, a inconstância, no caso de Ernani; o foco, o vazio, a obscuridade, no caso de Sandra, são termos que podem ser entendidos enquanto matrizes conceituais dos artistas.

Ernani possui uma longa trajetória no campo arte, marcada por sua proximidade com a xilogravura, com a arte-educação e com a experimentação tridimensional. Nesse processo, o artista vem extrapolando os limites tanto da técnica de xilo quanto da sua materialidade – a madeira –, criando situações de impermanência e fragilidade, alicerçadas na potência poética do risco. Colocar-se em risco, reconhecer o risco, exercitar o risco sempre e de novo como forma de afirmar a própria vida. São empilhamentos frágeis, feitos com caixilhos de madeira que podem ser tanto antigas caixas para frutas, estruturas para móveis, vestígios de matrizes de xilogravura ou mesmo fósforos e botões de roupas. Nos desenhos e gravuras, novamente, esses elementos de madeira, acrescidos de letras e sinais gráficos, assumem o protagonismo no jogo de construir arquiteturas frágeis. É assim que, em suas obras, podemos ver o encontro entre o minimalismo norte-americano a marcenaria do pai, o ateliê de costura da mãe e a ética do ensino, que reconhece a potência universal das experiências individuais.

Sandra também se dedica à produção plástica desde os anos 1980, conciliando a investigação pictórica com pesquisas em outras materialidades. Na presente exposição, a artista apresenta um conjunto de pinturas que versam, todas elas, sobre o vazio. Convivendo com a visão monocular desde a infância, Sandra propôs a si mesma enfrentar plasticamente sua condição física, produzindo uma série de obras que partem da perspectiva da falta e de suas características formais. Quer dizer, não é sobre noção de profundidade limitada, sobre redução de campo periférico, que seus trabalhos se debruçam, mas sobre o oco, a ausência corpórea de massa, o abismo do próprio pensamento. Nesse sentido, suas telas – todas em preto e branco – engendram formas circulares, redemoinhos espiralados, massas escuras com aureolas esbranquiçadas, que ora se assemelham a vulcões em erupção, ora a buracos negros, ora ao próprio vazio existencial ou a cavidade ocular.

O viés abstrato que atravessa as produções de Ernani Chaves e Sandra Kravetz contribui para que suas obras assumam, elas mesmas, a dimensão de um corpo poético, cujas entranhas encontram-se alicerçadas na investigação plástica e na experiência de vida de cada artista. E talvez por isso, o que poderia ser visto como apenas diferente se afirme como plenitude da compreensão estilhaçada. Olhando para as obras da exposição, desprendemos nossos sentidos de seus lugares de conforto e tiramos os pés e as amarras do chão, num percurso em que a dificuldade de abarcar, de enquadrar, de classificar, se revela como espelho da polissemia expressiva que não cabe em uma palavra.

 

abertura
17 de julho de 2025, 19h

visitação
até 17 de agosto de 2025

Conversa com artistas e curadores 
17 de julho, sexta-feira, às 17h, sala 3