Lançamento do livro de Memórias das Ocupações de Fábricas
Lançamento do livro “Memórias das Ocupações de Fábricas”, escrito por José Onírio Martins, que atuou como dirigente da Cipla e traz relatos do movimento das fábricas ocupadas. Oportunidade para conhecer um pouco deste movimento pelas palavras do autor.
o autor
José Onírio Martins
José Onírio Martins trabalhou na fábrica Cipla, em Joinville (SC), e integrou o Conselho de Fábrica durante o período em que a empresa esteve sob gestão dos trabalhadores. Formado em Ciências Contábeis, teve atuação na Pastoral da Juventude, aproximou-se da Esquerda Marxista (hoje Organização Comunista Internacionalista) e tornou-se um dos dirigentes do Movimento das Fábricas Ocupadas.
“Memórias das Ocupações de Fábricas” recupera a trajetória do movimento entre 2002 e 2007, período em que trabalhadores assumiram a gestão de empresas em crise para preservar empregos e manter a produção. Mais do que uma autobiografia, a obra funciona como um documento histórico sobre um capítulo singular do movimento operário brasileiro.
Entre os temas abordados estão:
- a ocupação das fábricas e a organização dos trabalhadores;
- o funcionamento da produção sob controle operário;
- as assembleias e o Conselho de Fábrica;
- as negociações com governos, Judiciário e credores;
- as caravanas e conferências nacionais em defesa do emprego;
- a articulação internacional com experiências semelhantes na América Latina, especialmente na Venezuela;
- a intervenção judicial de 2007, que encerrou a gestão operária da Cipla e da Interfibra.
O caso mais emblemático ocorreu em Joinville, nas fábricas Cipla e Interfibra, posteriormente acompanhado pela Flaskô, em Sumaré (SP).
As ocupações surgiram diante da ameaça de fechamento das empresas, salários atrasados e risco de centenas de demissões. A proposta defendida pelo movimento era que empresas paralisadas fossem estatizadas sob controle dos trabalhadores, preservando empregos e capacidade produtiva.
Durante esse período, ocorreram conferências nacionais, caravanas a Brasília e encontros latino-americanos de empresas recuperadas, aproximando trabalhadores brasileiros de experiências da Argentina, Venezuela e outros países.
Valor histórico
O livro interessa não apenas a militantes sindicais, mas também a pesquisadores das áreas de História, Sociologia, Economia e Relações do Trabalho. É uma fonte de memória sobre:
- a reorganização do movimento operário no início dos anos 2000;
- experiências brasileiras de autogestão industrial;
- as disputas políticas e jurídicas envolvendo empresas falidas;
- o debate sobre alternativas para preservação do emprego.
Por ser escrito por um protagonista, combina relato pessoal, documentos e reconstrução dos acontecimentos, oferecendo uma perspectiva interna de um episódio que marcou a história recente das lutas trabalhistas no Brasil.
O autor trabalhou na Cipla (Companhia Industrial de Plásticos), uma empresa brasileira fabricante de tubos, conexões e outros produtos de PVC para a construção civil e a indústria, sediada em Joinville (SC). Tornou-se conhecida nacionalmente não apenas por sua atividade industrial, mas por protagonizar uma das mais importantes experiências de ocupação de fábricas e controle operário da história recente do Brasil.
Origem da ocupação
No início dos anos 2000, a empresa enfrentava uma grave crise financeira, acumulando dívidas, dificuldades para pagar salários e risco de encerramento das atividades.
Em 31 de outubro de 2002, os trabalhadores decidiram assumir a gestão da fábrica para evitar o fechamento e preservar centenas de empregos. Pouco depois, também passaram a administrar a Interfibra, empresa do mesmo grupo.
A gestão era realizada por um Conselho de Fábrica, eleito pelos próprios trabalhadores, que organizava a produção, as finanças e as decisões estratégicas por meio de assembleias.
Como funcionava
Durante cerca de cinco anos, a Cipla operou sob controle dos trabalhadores.
Entre as medidas adotadas estavam:
- manutenção da produção e dos empregos;
- redução das diferenças salariais entre dirigentes e operários;
- decisões coletivas em assembleias;
- investimentos em segurança e melhorias nas condições de trabalho;
- articulação com sindicatos e movimentos sociais.
O movimento defendia que empresas abandonadas ou inviabilizadas pelos proprietários fossem estatizadas sob controle dos trabalhadores, e não simplesmente fechadas.
Um símbolo nacional
A experiência da Cipla ganhou repercussão internacional porque dialogava com o movimento das empresas recuperadas surgido na Argentina após a crise econômica de 2001, quando centenas de fábricas passaram a ser administradas por seus funcionários.
A fábrica recebeu delegações de diversos países e promoveu encontros nacionais e internacionais sobre autogestão e defesa do emprego.
O fim da experiência
Em 31 de maio de 2007, uma decisão da Justiça Federal determinou a intervenção na empresa. Um interventor foi nomeado para substituir a administração dos trabalhadores, sob o argumento de que a empresa acumulava dívidas tributárias e previdenciárias que precisavam ser regularizadas.
A intervenção marcou o fim da experiência de controle operário na Cipla, embora o episódio permaneça como referência nos debates sobre autogestão, recuperação de empresas em crise e alternativas para a preservação de empregos.
Importância histórica
A Cipla é considerada um dos casos mais emblemáticos do movimento das fábricas ocupadas no Brasil porque demonstrou, por um período significativo, que trabalhadores organizados conseguiram manter uma indústria em funcionamento em meio a uma crise empresarial. Ao mesmo tempo, tornou-se objeto de intensos debates políticos, jurídicos e econômicos sobre propriedade, gestão empresarial, direitos dos trabalhadores e políticas públicas para empresas em dificuldades.
data
4 de julho de 2026, 14h
Inscrições
gratuitas no formulário: https://forms.gle/gJX9zvJFBQS3u5Js8
local
Fundação Ecarta – Av. João Pessoa, 943 – Porto Alegre, RS

