Movimento nacional propõe incluir doação
de órgãos e transplantes nos currículos da saúde
Mais de 80 mil pessoas aguardam por um transplante no Brasil. Apesar disso, nenhuma faculdade oferece, de forma estruturada, formação curricular sobre o tema nos cursos da área da saúde. Como consequência, profissionais chegam ao mercado sem conhecimentos básicos sobre o assunto. Um dos reflexos dessa lacuna é a alta taxa de negativa familiar à doação de órgãos de potenciais doadores — quase 50%.
Para enfrentar o problema, foi lançado no dia 25/09, na sede da Fundação Ecarta (Porto Alegre), o Movimento Nacional pela Curricularização dos Conteúdos sobre Doação e Transplante de Órgãos e Tecidos nos Cursos da Saúde. A iniciativa foi proposta pela Fundação Ecarta e o coletivo de Ligas Acadêmicas de Transplantes do RS, com participação de estudantes e professores da Unisinos, UFRGS, Ulbra, UFCSPA, PUC-RS, Univates e UFPel.
Apoio institucional e técnico
A coordenadora do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), Patrícia Freire, destacou que as universidades têm papel estratégico na formação de profissionais capazes de atuar com competência e empatia. Segundo ela, curricularizar não é apenas adicionar aulas, mas integrar o tema ao longo do curso, com metodologias ativas, prática real e avaliação por competências. O movimento também recebeu apoio das Centrais de Transplantes do RS e de Santa Catarina — este último, referência nacional, com menos de 30% de recusas familiares.
Formação que transforma
A nefrologista representante da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) e professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) , Clotilde Garcia, que ministra uma disciplina sobre transplantes há duas décadas, ressaltou que o tema vai além do conhecimento técnico, promovendo empatia, ética e responsabilidade social. Um exemplo disso é o estudante Luis Umberto, que após frequentar a disciplina, tornou-se ativista e presidente da Liga de Transplantes.
“Cada atraso na formação significa vidas que deixam de ser salvas”, reforçou o presidente da AMIB, Bruno Besen. Kelly de Araújo, presidenta da Sociedade Brasileira de Queimaduras, celebrou também a incorporação da membrana amniótica ao SUS, avanço viabilizado por movimento semelhante lançado em 2024.
Salvar vidas depende de educação
O médico Roberto Manfro, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, lembrou que menos de 10% dos transplantes necessários são realizados no mundo, e que preparar profissionais é fundamental para mudar esse cenário.
O presidente do Coren-RS, Antônio Tolla, lamentou a ausência do tema na formação, mesmo após décadas de mobilização. A estudante de Medicina da UFRGS, Júlia Stela Paim, ressaltou a complexidade do tema e a importância de sua inclusão no currículo.
Transplantadas como Liége Gautério, Cláudia Concolatto e Adriana Teles também apoiaram o movimento, como representantes da Associação Brasileira de Transplantados e da ONG TX em Movimento.
Manifesto por mudanças
A deputada federal Maria do Rosário enviou vídeo de apoio e sugeriu levar o manifesto ao Ministério da Saúde e demais órgãos responsáveis por diretrizes educacionais. A ONG ViaVida, com 26 anos de atuação, também aderiu ao movimento, que segue aberto a novas assinaturas.
Estiveram presentes ainda coordenadores das Organizações de Procura de Órgãos do Grupo Hospitalar Conceição, Hospital de Pronto Socorro e Hospital de Montenegro.
“Curricularizar o tema é uma urgência ética, técnica e humanitária. A formação precisa preparar profissionais para transformar realidades e salvar vidas,” reforçou o presidente da Fundação Ecarta, Marcos Fuhr, que conduziu o evento e leu o manifesto ao final.
Fortalecer o SUS e o ensino
O movimento nasce como desdobramento do programa + Doação e Transplante nos Currículos da Saúde, da Fundação Ecarta, ativo desde 2021. A coordenadora do SNT finalizou com um chamado à ação: que os cursos mapeiem lacunas, definam competências e usem o Sistema Nacional de Transplantes como espaço formativo, com indicadores claros de desempenho e impacto.
Manifesto pela Curricularização dos Conteúdos sobre Doação e Transplante de Órgãos nos Cursos da Saúde
As entidades signatárias, reunidas no dia 25 de setembro de 2025, em Porto Alegre, lançam a Campanha Nacional pela Curricularização dos Conteúdos sobre Doação e Transplante de Órgãos e Tecidos nos Cursos da Saúde.
O Brasil, como é de conhecimento público, figura entre os maiores transplantadores de órgãos do mundo. No entanto, essa posição de destaque não se reflete na formação dos futuros profissionais da saúde, que, em sua maioria, concluem a graduação sem conhecimento técnico e humano sistematizado sobre temas essenciais relacionados ao universo da doação e dos transplantes.
Essa lacuna na formação contribui significativamente para que mais de 40% das famílias recusem a doação de órgãos, mesmo quando há um potencial doador identificado.
Porconsequência, mais de 80 mil pessoas aguardam por um transplante no Brasil.
A formação acadêmica deve caminhar lado a lado com os princípios da vida, da empatia e da solidariedade.
A curricularização dos conteúdos sobre doação e transplantes trata-se de uma urgência ética, técnica e humanitária.
A vida de milhares de pessoas depende da capacidade das instituições de ensino de formar profissionais preparados, não apenas para salvar vidas, mas para transformar realidades.
Sem conhecimento, não há doação. Sem doação, não há transplante. Sem transplante, há vidas que não se completam.
Este manifesto é um chamado à ação.
É essencial que os futuros profissionais conheçam o funcionamento do Sistema Nacional de Transplantes, compreendam o papel das Organizações de Procura de Órgãos (OPOs) e das Comissões Intra-Hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTTs).
Mais do que isso, é necessário que dominem os protocolos para doação intervivos, estejam capacitados para o diagnóstico de morte encefálica, saibam realizar a manutenção do potencial doador, compreendam a importância da comunicação ética e sensível com a família enlutada e atuem com uma abordagem interdisciplinar e humanizada em todo esse processo.
O transplante é o único ato médico que depende, necessariamente, da sociedade, que precisa estar sensibilizada e informada para tomar a difícil decisão de doar órgãos de um ente querido em um momento de dor e consternação.
Do outro lado devem estar profissionais capacitados e acolhedores, preparados para esse relacionamento delicado, que conecta a perda irreversível de uma vida com a possibilidade de continuidade para tantas outras, que aguardam, com esperança, por esse gesto de generosidade.
Essa é uma luta que interessa a toda a sociedade e deve sensibilizar a todos os agentes envolvidos na formação dos profissionais da saúde, dedicados a preparar quem atuará nos processos que envolvem o cuidado e o tratamento para manter o fluxo da vida.
Fundação Ecarta
Coletivo de Ligas Acadêmicas de Transplantes do Rio Grande do Sul
Porto Alegre, setembro de 2025

