PROJETO POTÊNCIA
Cronotopografias
A exposição nasce do descascar das paredes do apartamento onde a artista viveu por muitos anos, em Porto Alegre. A umidade e as sucessivas camadas de tinta incompatíveis fizeram com que as placas se soltassem com facilidade, revelando peles de parede compostas por cores sobrepostas. Essas peles registram a história do lugar e das escolhas de quem o habitou desde os anos 1950 e, na Fundação Ecarta, ganham nova leitura: mapas de um “lugar fora do lugar” e vestígios da passagem do tempo. Cronotopografias propõe uma investigação poética das transformações de um lugar ao longo do tempo por meio da manipulação da própria matéria do lugar.
artista
Fernanda Fedrizzi
Fernanda Fedrizzi (Porto Alegre/RS, 1987) é artista publicadora na Editora Certerrada, por onde se autopublica e publica outros artistas. Doutoranda em Poéticas Visuais (PPGAV/UFRGS) com período sanduíche no Swansea College of Art (Reino Unido), mestra em Processos de Criação e Poéticas do Cotidiano (PPGArtes/UFPel), especialista em Design Estratégico (Unisinos) e arquiteta urbanista (Unisinos) com período sanduíche na Detmolder Schule für Gestaltung (Alemanha), e intercâmbio na Sungkyunkwan University (Coreia do Sul). Dedica a pesquisa prático-teórica ao lugar por meio da fotografia e dos escritos usando a linguagem da publicação. Inicia sua trajetória como artista em 2016, no 3° Salão de Artes Plásticas de São Leopoldo/RS, onde foi premiada com 1° lugar pelo trabalho “Curiosidades de Rua”. Desde então, realizou quatro exposições individuais: “Quando lugar algum [re]torna-se algum lugar” (2019), no Espaço de Artes da UFCSPA, em Porto Alegre/RS; “O que você escuta quando a cidade chama?” (2019), na SECULT de Pelotas/RS; “Unfolding Place” (2023), na Bower Ashton Library, em Bristol, Reino Unido; e “O lugar na palavra” (2023), na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte/MG, além de diversas coletivas no Brasil e no exterior.
curadoria
Diego Hasse
Diego Hasse (Santa Rosa, 1988). Doutorando e Mestre em Artes Visuais pelo PPGAV-UFRGS, na área de concentração de História, Teoria e Crítica da Arte. Bacharel em História da Arte pela UFRGS. É membro dos Grupos de Pesquisa CNPq Arte em trânsito: viagens, derivas, deslocamentos e Apagamentos da memória da arte. Integrou o Comitê Curatorial da Galeria Ecarta (2020-21). Realizou curadorias de exposições individuais e coletivas em várias instituições do RS, como “Terralíngua: Camila Proto” (Margs, 2023); “Coloque-se no meu lugar” (Ecarta, 2021); “Riscos diários: Cristian Mossi” (Casa Baka e UFSM, 2023); “Sobre paisagem” (Galeria 506, 2023). Foi membro do Colegiado Setorial de Artes Visuais do Rio Grande do Sul. Recebeu o destaque em Exposição Coletiva do XI Prêmio Açorianos de Artes (2018) pela curadoria da exposição “Salta d’água: dimensões críticas da paisagem” (Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, 2017). Foi indicado ao destaque de Jovem Curador no XVIII Prêmio Açorianos de Artes (2024). Atua como pesquisador, crítico de arte e curador independente.
Em Cronotopografias, somos convidados a experienciar os desdobramentos recentes da pesquisa poética de Fernanda Fedrizzi. Ao dialogar com o espaço expositivo da Fundação Ecarta, a artista nos apresenta um conjunto de trabalhos inéditos. O ponto de partida centra-se em um elemento cotidiano que serve como estrutura central para todos os trabalhos expostos, o qual foi batizado por ela de peles de parede.
Trata-se de fragmentos provenientes do processo de descamação das superfícies das paredes do apartamento onde a artista residia, em Porto Alegre. A ocorrência deste processo se deu por fatores como a umidade e a incompatibilidade físico-química entre as múltiplas camadas de tinta. Ao se deparar com essas peles de parede e atuando como uma espécie de arqueóloga, Fernanda as arquiva para então ressignificá-las por meio do seu processo criativo.
Ao articular as ideias de tempo (cronos), lugar (topos) e as formas de expressá-las ou representá-las (grafia), o jogo semântico presente no título da mostra já antecipa o eixo transdisciplinar da investigação da artista. Assim, ela concede outras camadas de sentido aos restos que estavam submersos no cotidiano, bem como entreabre a nós, seus espectadores, novas possibilidades para pensá-los e experimentá-los, o que é próprio do léxico da arte contemporânea. Isto é, materializados em diferentes meios e suportes, como instalações, fotografias, publicações e colagens digitais e analógicas, eles transcendem a condição de simples detrito ou resíduo de construção para se apresentarem, à sua maneira, como vestígios da passagem e da ação do tempo (tanto em sua dimensão histórica quanto meteorológica) e/ou como camadas de memória condensadas.
De acordo com o olhar de Aleida Assmann, para os artistas que desenvolvem trabalhos sobre a memória, não há mais nada a ser reconstituído, tendo em vista que sua prática se restringe a salvaguardar, ordenar, conservar e dar sentidos outros aos vestígios encontrados. Nessa toada, os fragmentos de parede, antes destinados ao esquecimento, agora (re)formulados pelo olhar atento e pelo processo de inventividade de Fedrizzi, suscitam memórias e reverberam a história do lugar e as decisões de seus moradores ao longo do tempo.
Com isso, o deslocamento dos fragmentos do apartamento para o interior da casa que sedia a galeria não se limita a uma simples mudança de cenário. Ao contrário, os vestígios estruturantes dos trabalhos aparecem aqui como elementos relativos a um lugar (o antigo apartamento da artista) transplantados para outro lugar (a Galeria Ecarta), esse, por sua vez, possui a própria densidade histórica e arquitetônica. Desta feita, por meio de um processo topográfico, a justaposição desses dois lugares evidencia a existência de um lugar fora do lugar, gerando um atravessamento conceitual que compõe e revela uma terceira narrativa, uma dimensão efêmera e híbrida que existe apenas no momento da exposição.
Ainda, a fragilidade e a instabilidade inerentes às peles de parede, rígidas, porém frágeis, revelam que o trabalho continua seu processo de transformação. Ou por outra, tendo em vista que estes fragmentos advêm de rupturas geradas pela passagem do tempo e por incompatibilidades materiais, sua permanência na galeria faz com que continuem seu processo de transformação, conferindo à mostra um caráter de laboratório vivo. Sob tal perspectiva, o trabalho de Fernanda Fedrizzi encontra sua potência também nesse paradoxo: a fixação de uma memória que é pragmaticamente destinada à dissolução.
Diego Hasse
curador, historiador e crítico de arte
obras
Seis obras incluindo instalações, pele de parede, impressão, objetos e fotografia
Lugar deslugarizado
2025
Instalação
Prensas de madeira e peles de parede
16 unidades
4 x 15 x 10 cm (cada)
Territórios
2025
Impresso
Papel sulfite 180g/m²
4 unidades
21 x 21 cm
Manipulações
2025
Fotografia
Papel sulfite 180g/m²
4 unidades
40 x 30 x 6 cm (cada)
Pele de parede
2025
Peles de paredes
Tintas diversas
1 unidade
Dimensões variadas
Azimutais
2025
Peles de parede
Tintas diversas
10 unidades
⌀15 cm
Ateliê de Documentação, Arquivo e Performance do Tempo (ADAPTO)
2025
Objetos relacionados às peles de parede
Publicação e objetos diversos
Dimensões variadas
abertura
11 de novembro de 2025, 19h
17h conversa com artistas e curadores
visitação
até 14 de dezembro, de terça a domingo, das 10h às 18h
entrada franca

