ARTISTA + ARTISTA
Bina Monteiro – O Tempo Reverso da Matéria
Gus Bozzetti – Se Você Ficar Um Pouco Mais
Na Série ECR-5, Bina Monteiro tensiona a perenidade da escultura renascentista com a impermanência tecnológica, reduzindo o mármore clássico à planicidade bidimensional do espaço digital. Nesse território, as obras sofrem fracionamentos e sobreposições onde o glitch — a falha visual, a distorção e ruídos técnicos na cor — emerge como inspiração e interferência poética ativa. O erro computacional e a desordem gráfica rompem a linearidade do tempo, enquanto a paleta inspirada no sistema CMYK desloca a aura do objeto único para a reprodutibilidade industrial. Expandindo as investigações cromáticas e espaciais de sua trajetória, a artista reorganiza o tempo da matéria e faz da falha digital o espelho contemporâneo da nossa própria fragmentação cultural.
obras
pintura digital – 14 obras (4 trípticos e 1 díptico) – Impressão Fine Art em jato de tinta com pigmento mineral. Papel Hahnemuhle – Foto Rag – Ultra Smooth 308 gramas
artista
Bina Monteiro
Nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul/Brasil, em 7 de novembro de 1952. Formou-se em Comunicação Social pela PUC/RS em 1977. Em 1980 cursa Elementos Pictóricos, faz a Escola de Artes da Secretaria de Educação e Cultura/RS; em 1983, Serigrafia no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre, estuda com Monica Zielinsky, Rubens Gerchmann e Luis Paulo Baravelli. Em 1999 começa a dar aula de técnica de pintura. Em 2002e 2004 assume a presidência Associação Rio-grandense de Artes Plástica. Em 2006 faz Mestrado em Museologia no Instituto de Artes da Universidade Federal do RS. Em 2013 atua como Diretora Cultural do Museu de Arte Contemporânea RGS, por duas gestões. Em 2019 inicia o Grupo de Acompanhamento de Projeto no Ateliê Alê, com o curador Paulo Gallina em São Paulo e, em 2022, inicia Casa Tato, São Paulo, com orientação de diversos curadores.
Principais Exposições Individuais
2020- Compósito, Sao Paulo, SP
2016 – Compósito, Entre o Monólogo e o Diálogo – Curadoria André Venzon – Instituto Estadual de Artes Visuais-MACRS, Porto Alegre/RS
2011 – Galeria Modernidade, Novo Hamburgo/RS
2010/2009/2008/2007 – Jadite Gallery, New York/USA
2008 – Colorida Art Gallery, Lisboa/Portugal – Centro Cultural Cândido Mendes, Rio de Janeiro/RJ
2006 – Exposição no Museu de Arte do RGS, Ado Malagoli, Porto Alegre/RS
2005 – Exposição Centro Cultural dos Correios, Rio de Janeiro/RJ
1997 – Cacco Zanchi Kunstgalerij- Aalst/Bélgica; CCBB / Europe – Bruxelas/Bélgica.
Exposições Coletivas
2023 – Afluir, 12 Poéticas Singulares, Gal. Tato, São Paulo
2023 – Além da Foz, Gal. Tato – São Paulo
2022 – Fora das Sombras: Novas Gerações do Feminino na Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – Museu Oscar Niemeyer (MON), Curitiba/PR
2019 – Contingência da Memória – Curadoria Paulo Gallina – Ateliê Alê, São Paulo/SP
2018 – Paisagens em Dois Tons – Curadoria Ana Zavadil – MACRS, Porto Alegre/RS; Como se constrói o Tempo – Curadoria Paulo Gallina – Ateliê Alê, São Paulo/SP; Insulares – Curadoria Ana Zavadil – MACRS.
2017 – Paisagens Imaginárias – Curadoria Ana Zavadil – Galeria Marte, Montevideo/Uruguai; Arte Contemporânea do RGS – Curadoria Paulo Amaral; Galeria Czech Centres, Praga/República Tcheca; Paisagens (In) Certas – Curadoria Ana Zavadil – EL SUBTE, Montevideo/Uruguai
2014 – Útero Museu e Domesticidade: Gerações do feminino na arte, MARGS, Porto Alegre/RS; Deus e sua obra no Sul das Américas – Curadoria Gaudêncio Fidelis – inauguração do Museu dos Direitos Humanos, Porto Alegre/RS; O Cânone Pobre, uma arqueologia da precariedade na arte, MARGS.
2013 – A Bela Morte: Confrontos com a natureza Morta no século 21, MARGS, Porto Alegre/RS
2012 – Luxúria – Curadoria Carmen Reis – Escritório de Arte, Porto Alegre/RS; Bienal B – Espaço Rotta Ely – Porto Alegre/RS
2003 – Bolsa de Arte Porto Alegre/RS
2002 – Brazilian Art Exhibition- London/Inglaterra; Exposição de Arte Brasileira- Atenas/Grécia; Exposição de Arte Brasileira- Lisboa/Portugal; Exposição de Arte Brasileira- Madrid/Espanha
1999,1998 – Exposição Galeria Mosaico- Porto Alegre/RS
1996 – O Espírito dos Sonhos Perdidos- Aalst/Bélgica; Panorama, Van Braziliaanse Kunst- Aast/Bélgica
Prêmios e Projetos especiais
2025- Pipa Parade, Farropilha,RS
2019- Feira de Arte Parte, São Paulo,SP
2018 – CompartiArte- Centro Brasileiro Britânico, Sao Paulo, SP; Feira de Arte Parte, Hebraica, São Paulo,SP
2010-Exposição CowParade- AvacaQueViu
2007- Intervenção Clarice Lispector, Teatro Renascença, RGS
2006- Atelier Aberto- Bienal do Mercosul
1996- Muro da Mauá, Avenida Mauá, Secretaria Municipal de Cultura- Porto Alegre,RS
1991- Torre de Babel, aniversário da cidade de Porto Alegre, Parque Moinhos de Vento-Porto Alegre, RS
1987- Projeto Releitura. Obra de Glênio Bianchetty, Museu de Arte do RGS – Porto Alegre, RS
1983- IV Exposição de Artes Brasil/Japão- Tóquio, Quioto e Atami, Japão.
obras
pintura digital – 14 obras (4 trípticos e 1 díptico) – Impressão Fine Art em jato de tinta com pigmento mineral. Papel Hahnemuhle – Foto Rag – Ultra Smooth 308 gramas
conceito
A apropriação da matriz renascentista sob a lente da ruptura digital
Toda grande jornada estética pressupõe um ato de coragem: o de olhar para o absoluto e decidir fracioná-lo. Na contemporaneidade, onde a imagem se prolifera em fluxos velozes e efêmeros, a artista visual Bina Monteiro realiza uma operação inversa e cirúrgica na sua mais nova série de trípticos, intitulada ECR-5. O trabalho, que ancora sua próxima exposição, é o resultado lógico e maduro de uma trajetória de mais de quatro décadas dedicadas à pesquisa, à docência e à liderança institucional nas artes visuais do Rio Grande do Sul.
A origem da série reside em uma imersão profunda pela Itália, onde a artista confrontou-se com o legado insuperável dos mestres do Renascimento e do Barroco — de Da Vinci a Bernini, de Brunelleschi a Michelangelo. Diante do mármore, do cinzel, do realismo e da leveza sublime que transformaram esses criadores históricos em faróis atemporais da humanidade, Bina não se deixou paralisar pela reverência passiva. Ao contrário, ativou o instinto essencial que define a sua prática: a fricção direta entre a memória espacial urbana e o tempo presente.
Como conciliar a herança clássica europeia com a pulsação do agora? Como mesclar as técnicas tradicionais da têmpera, da encáustica e dos pigmentos naturais com o universo computacional, tecnológico e digital? Para Bina Monteiro, essas perguntas ganham contornos ainda mais complexos e íntimos. Cidadã ítalo-brasileira de terceira geração, sua identidade é atravessada tanto pela ancestralidade europeia quanto pela proximidade vital com as raízes mais originárias, indígenas e africanas, do território sul-americano. Diante do turbilhão histórico da península itálica, a artista operou uma manobra conceitualmente assertiva e historicamente legítima: a apropriação consciente. Assim como os romanos se apropriaram da visualidade grega para fundar seu próprio império cultural, Bina se apodera da origem renascentista para demarcar o seu território contemporâneo.
A Lógica Construtiva do Deslocamento
O rigor conceitual da série ECR-5 manifesta-se na desconstrução da tridimensionalidade escultural. Através de seu olhar fotográfico originário, a artista captura as formas célebres do passado, retira-as de seus nichos históricos e as transporta para um não-lugar. As esculturas são despidas de seu contexto arquitetônico, de suas sombras projetadas e de suas características volumétricas tradicionais. Na planicidade do espaço bidimensional, a imagem fotográfica sofre um achatamento deliberado, assumindo a austeridade de um desenho monocromático.
A partir dessa superfície plana, Bina inicia uma complexa operação matemática e sensível de tratamento de imagens em camadas, expandindo as pesquisas que outrora realizara na emblemática Série Compósito — onde investigava o pixel de maneira analógica. Agora, no campo estritamente digital, as imagens sofrem duplicações, repetições, fracionamentos e rupturas propositais. Os corpos de mármore e bronze são recortados, entrelaçados e justapostos, gerando novos ecossistemas de significado que exigem a participação ativa do espectador.
“A fusão e a ruptura se mesclam e se intercalam para reorganizar a obra, de maneira que o olhar do público não apenas contemple a forma final, mas acompanhe, passo a passo, o raciocínio físico e intelectual da criação.”
A Saturação do Olhar: A Paleta Industrial
A estrutura cromática da exposição desenha uma narrativa visual clara e progressiva por meio dos trípticos. O primeiro conjunto é orientado pela sobriedade e pelo peso histórico da paleta marrom, ancorando a visualidade na terra e na herança material. O segundo tríptico transiciona para a intensidade do magenta, injetando uma voltagem artificial e vibrante na composição. O clímax se dá no terceiro movimento: uma fusão que simula o sistema CMYK (Ciano, Magenta, Amarelo e Preto), a paleta industrial que rege o universo gráfico e a reprodutibilidade técnica.
Ao revestir os ícones do Renascimento com as cores básicas da impressão de massa, Bina Monteiro provoca um curto-circuito brilhante na história da arte. Ela retira a aura da exclusividade intocável do mármore e a reposiciona no centro do debate contemporâneo sobre a saturação de estímulos, o ruído tecnológico e as interferências digitais cotidianas. O erro computacional, a quebra de pixel e o recorte mecânico deixam de ser falhas para se tornarem os principais elementos poéticos de costura do tempo.
Um Testemunho de Maturidade Artística
A série ECR-5 é, fundamentalmente, uma afirmação do conhecimento técnico e maturidade intelectual. Bina Monteiro constrói um ensaio visual assertivo sobre a permanência e a impermanência. Sua obra nos prova que a tradição não deve ser apenas guardada em museus, mas metabolizada, tensionada e reinventada.
Ao conectar de forma tão coesa o passado renascentista e o presente tecnológico, a artista oferece ao público não apenas uma poderosa exposição de artes visuais, mas um espelho de nossa própria condição: fragmentada, multifacetada, mas profundamente conectada às linhas invisíveis da história.
artista
Gus Bozzetti
Se Você Ficar Um Pouco Mais reúne retratos que investigam a fragilidade da memória e sua incapacidade de preservar integralmente aqueles que amamos. Tomando o rosto do meu pai como ponto de partida, os trabalhos não buscam reconstruir uma imagem fiel, mas registrar o movimento instável da lembrança: aquilo que persiste, desaparece e se transforma com o tempo. Entre figuração e apagamento, os retratos oscilam entre reconhecimento e perda, revelando fragmentos que resistem ao esquecimento. Desenvolvida sobre papel, a série encontra nesse material um aliado conceitual, capaz de acolher manchas, transparências e desgastes que ecoam o funcionamento da própria memória. Mais do que falar sobre uma pessoa específica, os trabalhos refletem sobre a experiência universal da ausência e sobre a insistência humana de tentar preservar, por meio das imagens, aquilo que inevitavelmente escapa.
curadoria
André Venzon
data
7 de julho a 9 de agosto de 2026
abertura, 19h
conversa com artistas, 17h
visitação
de terça a domingo, das 10h às 18h
Entrada franca




