A utopia está no infinito

A exposição investiga a experiência migratória como processo contínuo de deslocamento simbólico e reconstrução identitária. A figura do astronauta surge como metáfota do sujeito migrante: corpo em trânsito, protegido e ao mesmo tempo isolado, suspenso entre o território de origem e o país de acolhimento. O espaço sideral converte-se em subjetivo, onde pertencimento e estranhamento coexistem.

As fotografias, realizadas a partir do interior de um quarto escuro durante uma travessia, registram pequenos círculos de luz que projetam fragmentos do exterior. Esses pontos luminosos operam como dispositivos de mediaçao entre o dentro e fora, clausura e liberdade, configurando uma reflexão sobre o horizonte como promessa de projeção.

As esculturas em cerâmica reforçam a noção de deslocamento, tensionando fragilidade e impulso. A exposiçao propõe, assim, um diálogo sensível sobre identidade em trânsito, memória e utopia como força motriz.

artista

Ioán Carratalá (Havana/Cuba, 1984) é um artista visual cubano radicado no Brasil, cuja produção transita por diferentes linguagens, como cerâmica, escultura, desenho, fotografia e vídeo. Graduou-se na Academia de Belas Artes “San Alejandro”, em Havana (2003), com ênfase em escultura; realizou pós-graduação em Desenho Monumental e Ambiental (2010); e concluiu a Licenciatura em Artes Visuais pela Universidade das Artes de Havana (2023). É membro da União de Escritores e Artistas de Cuba (UNEAC) e desenvolve, há mais de 20 anos, sua prática artística em paralelo à docência. Suas obras destacam-se pelo forte impacto plástico, alcançado por meio de uma notável síntese material e visual. Na última década, a cerâmica tornou-se um de seus principais recursos expressivos, explorada como meio de acentuar e expandir as camadas conceituais de seu trabalho. O artista dialoga com as próprias características do material — fragilidade, leveza e suavidade — como metáforas sensíveis de suas investigações. Migração, memória e identidade constituem os eixos centrais de sua produção, atravessados por experiências pessoais que conferem densidade poética e autobiográfica à sua obra.

Cartografia de uma ausência

 Ioán Carratalá é um artista cubano de práticas polivalentes cuja obra, nos últimos anos, se desdobra entre o desenho, a instalação, o vídeo e a cerâmica. Sua produção se nutre da experiência pessoal como ferramenta de investigação estética e política, articulando processos nos quais a memória íntima se converte em matéria crítica.

Seu trabalho reflete sobre a experiência do emigrante, o desenraizamento, a memória e a construção de uma identidade em trânsito. A partir de um olhar sensível e, ao mesmo tempo, incisivo, articula linguagens diversas para questionar as noções de pertencimento, território e representação, explorando o autorretrato e a imagem como espaços de resistência, arquivo pessoal e afirmação simbólica.

Em a utopia está no limite investiga a experiência migratória como um processo contínuo de deslocamento simbólico, afetivo e identitário. O uso do autorretrato, em vários casos, constrói-se em um território de tensão entre o lugar de origem e o lugar de chegada, onde a noção de pertencimento se torna instável e fragmentada. A obra propõe uma cartografia emocional que não traça fronteiras geográficas, mas rastros de memória, ausência e reconstrução constante do eu.

O autorretrato e o autorreferencial, não é utilizado como afirmação do eu, mas como um dispositivo de reflexão sobre o não pertencimento e o estranhamento. A sensação de não se reconhecer plenamente em nenhum dos dois contextos – aquele que se deixa para atrás  e aquele que se passa a habitar – atravessa o conjunto das obras, revelando uma vivência marcada simultaneamente pela ilusão do futuro, pela expectativa e pela perda.

A memória assume um papel central no projeto, operando como um campo mutável, onde lembranças se sobrepõem, se transformam e se distorcem com o tempo. Essas memórias constroem imagens incompletas, por vezes atravessadas pela ausência, refletindo a instabilidade própria do processo migratório. O corpo aparece como arquivo vivo dessa experiência: um espaço onde se inscrevem as marcas visíveis e invisíveis do deslocamento. A migração é entendida não apenas como movimento físico, mas como uma condição prolongada que afeta a percepção do tempo, da identidade e da própria imagem.

Ao partir de uma experiência individual, o projeto propõe urna leitura coletiva, convidando o público a refletir sobre os deslocamentos contemporâneos e sobre a construção da identidade em contextos de mobilidade. A exposição não busca oferecer urna resolução narrativa, mas criar um espaço sensível de reconhecimento, onde a fragilidade, a ambiguidade e o estar em trânsito possam ser compartilhados

data
abertura
5 de março de 2026, 19 horas
conversa com artistas às 17h

visitação
até 5 de abril de 2026, de terça a domingo, das 10h às 18h

entrada franca